INTRODUÇÃO:
A crucificação, a morte e o sepultamento de Jesus
(Jo 19.17-52)
A CRUZ DE CRISTO é pré-histórica. Estava incrustada no coração de Deus antes da fundação do mundo (1Pe 1.18-20; Ap 13.8; At 2.23). O Calvário não foi um acidente, mas um plano divino. Cristo veio para morrer. A morte na cruz sempre esteve em sua agenda; ele profetizou várias vezes que veio para morrer. Ele não morreu como um mártir, mas deu a sua vida voluntariamente.
Ele é o Cordeiro que tira o pecado (1.29).
Joã 1:29 No dia seguinte, João viu a Jesus, que vinha caminhando em sua direção, e disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!
É como a serpente levantada (3.14).
Joã 3:14 Assim como Moisés levantou a serpente no deserto,desse mesmo modo é necessário que o Filho do homem seja levantado,
Joã 3:15 para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
É o pastor que dá a vida pelas ovelhas (10.11-18).
Joã 10:11 Eu Sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas.
É o grão de trigo que cai e morre para produzir muitos frutos (12.20-25).
Jesus foi para a cruz não apenas porque os judeus o entregaram por inveja; não apenas porque Judas o traiu por dinheiro; não apenas porque Pilatos o condenou por covardia. Cristo foi para a cruz porque o Pai o entregou por amor. Cristo foi para a cruz porque ele mesmo se entregou voluntariamente por nós.
O Calvário é o maior drama da História. É o palco da justiça de Deus, de
seu consumado repúdio ao pecado e, também, o palco do inënito amor de Deus, pois ali ele não poupou o próprio Filho para nos salvar. A cruz de Cristo é o nosso êxodo, a nossa libertação.
Depois de Jesus ser sentenciado à morte pelo Sinédrio por causa de crimes de blasfêmia contra Deus e rebelião contra César, a condenação à morte de cruz é autorizada por Pilatos, governador romano. A morte por crucificação era em si considerada uma maldição (Dt 21.23; Gl 3.13).
Deu 21:23 seu cadáver não poderá permanecer na árvore durante a noite; tu o sepultarás naquele mesmo dia, pois o que for pendurado num madeiro está debaixo da maldição do desprezo de Deus. Sendo assim, não tornarás impura a terra que o Eterno, o SENHOR, teu Deus, te dá como herança!
Gál 3:13 Foi Cristo quem nos redimiu da maldição da Lei quando, a si próprio se tornou maldição em nosso lugar, pois como está escrito: “Maldito todo aquele que for pendurado num madeiro”.
A crucificação de Jesus (19.17-22)
Jesus já estava com as forças esgotadas. Desde a noite anterior, estivera
preso, sendo castigado pelos judeus. Na sexta-feira da Páscoa, Jesus, o Cordeiro de Deus, é cuspido, torturado e escarnecido. Do pretório romano, por pressão das autoridades judaicas e por covardia conveniente de Pilatos, Jesus sai carregando o maldito lenho pelas ruas estreitas e apinhadas de gente de Jerusalém. A multidão ensandecida e insuìada pelos seus líderes religiosos grita desenfreadamente palavras de escárnio ao Filho de Deus.
Os soldados romanos, sem nenhuma urbanidade e piedade, açoitam aquele que já havia sido esbordado com desmesurado rigor (19.16,17).
Aos empurrões e chibatadas, Jesus carrega a cruz rumo ao monte da
Caveira. F. F. Bruce diz, com razão, que Jesus é “levado” para o local da execução, mas não como uma vítima relutante, obrigada a ir aonde por si mesmo não iria; ele acompanha seus carrascos por vontade própria e
carregando pessoalmente a cruz
Três fatos merecem destaque aqui.
Em primeiro lugar, Jesus carrega a sua cruz (19.17).
Aquele lenho não era apenas um instrumento de execução, mas um emblema. O mais perverso instrumento de pena de morte transforma-se no símbolo do cristianismo, pois naquela cruz Jesus carregou em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados (1Pe 2.24).
1Pe 2:24 Ele levou pessoalmente todos os nossos pecados em seu próprio corpo sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e, então, pudéssemos viver para a justiça; por intermédio das suas feridas fostes curados.
Jesus não caminha para o Calvário como uma vítima impotente,
como um derrotado pelo sistema. Ao contrário, caminha como um rei
caminha para sua coroação.
Em segundo lugar, Jesus é crucificado entre dois malfeitores (19.18). A
crucificação era o mais cruel e sórdido dos castigos. Consistia em fixar os braços ou mãos da vítima no travessão para então içá-lo até que ele ficasse em cima da estaca vertical, na qual seus pés eram fixados.
As mãos e os pés eram presos à madeira com pregos.
Dores lancinantes, câimbras insuportáveis, asfixia atordoante e sede implacável torturavam as vítimas expostas ao mais vexatório espetáculo de horror. De acordo com Cícero, estadista e filósofo romano, a crucificação era o mais cruel e vergonhoso dos castigos. Essa forma
de pena capital era reservada aos criminosos mais sórdidos, especialmente os que instigavam insurreições
No topo da montanha da Caveira, três cruzes foram suspensas. Do lado
direito e esquerdo de Jesus, foram crucificados dois ladrões (Mt 27.38), dois malfeitores (Lc 23.33).
Luc 23:33 Quando chegaram a um lugar conhecido como Caveira, ali o crucificaram com os criminosos, um à direita e o outro à sua esquerda.
A cruz de Jesus estava no meio, porque o reputavam como o maior criminoso, condenado por crime de blasfêmia e sedição, e também porque em Jesus todos os homens são julgados.
O ladrão e malfeitor da direita arrepende-se na última hora, e é salvo. O ladrão e malfeitor da esquerda permanece impenitente, e perece. A cruciëcação de Jesus tornou-se, outrossim, o grande tema da mensagem evangélica. O apóstolo chegou a afirmar: Nós pregamos Cristo crucificado, que é motivo de escândalo para os judeus e absurdo para os gentios. Mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus (1Co 1.23,24).
A morte de Cristo foi o mais horrendo crime. Judeus e gentios, religiosos e políticos, uniram-se para condenarem Jesus. Pedro denunciou às autoridades judaicas por matarem o autor da vida (At 3.15)
Ats 3:15 Vós matastes o Autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos. E nós somos testemunhas deste fato.
e o crucificarem por mãos de iníquos (At 2.23).
Ats 2:23 este homem vos foi entregue por propósito determinado e pré-conhecimento de Deus; mas vós, com a cooperação de homens perversos, o assassinaram, pregando-o numa cruz.
Destacamos alguns pontos importantes aqui.
O local da crucificação. Gólgota, o local onde Jesus foi cruciëcado, era
também conhecido como Lugar da Caveira (Mc 15.22).
Mar 15:22 Levaram Jesus para um lugar denominado Gólgota, que significa local da Caveira.
Naquele tempo, os criminosos condenados à morte de cruz não tinham o direito a um sepultamento digno. Muitos deles eram deixados apodrecendo na cruz. Talvez o monte tenha recebido esse nome não apenas por causa da sua aparência de caveira, mas, também, por causa do horror de haver sempre ali corpos putrefatos.
A dor física da crucificação. A morte de cruz era a forma de os romanos
aplicarem a pena de morte. Os judeus consideravam maldito aquele que fosse dependurado na cruz (Gl 3.13). A pessoa morria de câimbras, asfixia e dores crudelíssimas. A morte vinha por sufocação, esgotamento ou hemorragia. Já se disse que a pessoa crucificada, “morre mil mortes”.
A dor moral e espiritual da crucificação. Jesus foi escarnecido como profeta (Mc 15.29), como Salvador (Mc 15.31) e como Rei (15.32). Ele foi crucificadoentre dois ladrões como um criminoso. Foi despido de suas vestes, que acabaram sendo repartidas pelos soldados. Foi zombado quando pregaram em sua cruz a acusação que o levou à morte (Mc15.26). Foi escarnecido pelos
Mar 15:26 E assim ficou escrito na acusação contra Ele: O REI DOS JUDEUS.
transeuntes que ainda alimentavam as mentiras espalhadas pelas falsas
testemunhas (Mc 15.29).
Mar 15:29 Os transeuntes lançavam-lhe impropérios, gesticulando a cabeça e exclamando: “Ah! Tu que destróis o templo e, em três dias, o reconstróis!
Foi vilipendiado pelos principais sacerdotes e escribas que o acusaram de impotente para ajudar a si mesmo (Mc15.31).
Mar 15:31 Da mesma maneira os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei zombavam dele entre si, exclamando: “Salvou a tantos, mas a si mesmo não pode salvar-se!
Foi insultado até mesmo por aqueles que com ele terminaram crucificados (Mc15.32).
Mar 15:32 Que o Cristo, o Rei de Israel, desça agora da cruz, para que o vejamos e creiamos!”. E, de igual modo, os que com Ele foram crucificados o insultavam. Jesus brada em sua morte
A última cartada de Satanás. Satanás sempre tentou desviar Jesus da cruz.
Agora, dá sua última cartada. O povo gritou para Jesus salvar a si mesmo (Mc 15.30), e os principais sacerdotes e escribas disseram-lhe: Desça agora da cruz o Cristo, o rei de Israel, para que vejamos e creiamos […] (Mc 15.32). Se Jesus salvasse a si mesmo, não poderia salvar-nos. Se ele descesse da cruz, nós desceríamos ao inferno.
As trevas sobre a terra. A penúltima praga que assolou o Egito antes da
morte do Cordeiro pascal foram três dias de trevas. Agora, antes de Jesus, o nosso Cordeiro pascal, ser imolado na cruz, também houve três horas de trevas sobre a terra (Mc 15.33).
Mar 15:33 E aconteceu que toda a terra foi coberta pelas trevas, desde o meio-dia até às três horas da tarde.
“No nascimento do Filho de Deus, houve luz à meia-noite; na morte
do Filho de Deus, houve trevas ao meio-dia”
A escuridão simbolizou julgamento: o julgamento de Deus sobre o nosso pecado; sua ira consumindose no coração de Jesus, para que ele, como nosso substituto, pudesse sofrer a agonia mais intensa, a aìição mais indescritível e o desamparo e o isolamento mais terríveis.
No breve relato que João faz da morte de Cristo, ele insere mais duas de suas palavras na cruz.
Destacamos aqui três pontos.
Em primeiro lugar, Jesus demonstra seu sofrimento físico (19.28). A
cruciëcação era a mais horrenda forma de pena capital. Depois de torturado, o criminoso era pregado na cruz, exposto ao calor do dia e ao frio da noite.
O sangue esvair, as câimbras torturavam, a asëxia sufocava, e a sede era
esmagadora. Em vez de aliviarem sua sede, deram-lhe vinagre para agravá-la ainda mais. Esta foi a quinta palavra de Cristo na cruz: Estou com sede.
Essa declaração retrata tanto a perfeita humanidade como a profundidade do sofrimento de Cristo na cruz.
Todavia, durante todo o episódio, nem uma única palavra de murmuração passou em seus lábios. Não havia queixa alguma, nenhum rogo por misericórdia. Todos os seus sofrimentos foram suportados em augusto silêncio. Como uma ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a sua boca (Is 53.7)
Isa 53:7 Ele foi maltratado, humilhado, torturado; contudo, não abriu a sua boca; agiu como um cordeiro levado ao matadouro; como uma ovelha que permanece muda na presença dos seus tosquiadores ele não expressou nenhuma palavra.
Mas, agora, com o corpo arruinado, todo dorido, e a boca ressecada, ele clama: Estou com sede. Não foi um apelo por compaixão, nem um pedido pela mitigação de seus sofrimentos; ele expressou a intensidade das agonias pelas quais estava passando.
Sua última Palavra foi.. está consumado
A palavra grega Tetelestai tinha três significados básicos:
1. Missão cumprida. Quando um pai encarregava seu filho de uma tarefa, o filho, ao concluí-la, chegava para o pai e dizia: Tetélestai (“Está terminado o meu trabalho”).
O Pai enviou Jesus, o seu Filho unigênito, ao mundo com a missão de cumprir a lei por nós e morrer em nosso lugar, levando sobre o seu corpo no madeiro os nossos pecados e adquirindo para nós eterna redenção.
Jesus se fez carne e habitou entre nós. Viveu como um de nós, mas sem pecado.
2. Resgate definitivo. Quando um devedor ia pagar o seu débito numa
agência bancária, ao saldar toda a dívida, a promissória era carimbada: Tetélestai (“Está pago!”). Quando Cristo foi à cruz, ele rasgou o escrito da dívida que era contra nós e o encravou na cruz. Ele pagou a nossa dívida e quitou o nosso débito. Nossa dívida com Deus era impagável.
Todos estamos aquém das exigências da lei. A lei exige perfeição total, e nós somos imperfeitos. Jamais poderíamos cumprir a lei ou satisfazer as demandas da justiça divina. Mas o que não podíamos fazer, Cristo fez por nós. Agora, em Cristo, estamos quites com a lei de Deus. Agora, as demandas da justiça divina foram satisfeitas.
Agora, fomos justificados pelo sangue de Cristo. Agora, já nenhuma
condenação há mais para aqueles que estão em Cristo Jesus. Estamos
perdoados.
3. Posse permanente e definitiva. Quando uma pessoa comprava um imóvel, após efetuar todo o pagamento, recebia uma escritura definitiva com o carimbo: Tetelestai. Quando Cristo bradou na cruz: Está consumado, ele nos entregou o certiëcado, a garantia e a escritura registrada da nossa posse de uma herança eterna, incorruptível e gloriosa no céu. Agora, tornamo-nos ëlhos de Deus, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo. Agora, as riquezas insondáveis de Deus são nossas. Os céus nos pertencem por herança. O céu é a casa do Pai, o nosso lar, a nossa morada, a nossa Pátria. O céu não é apenas uma vaga possibilidade, mas uma realidade concreta. Não é apenas uma esperança vazia, mas uma convicção inabalável. Cristo comprou-nos com o seu sangue. Abriu para nós um novo e vivo caminho para Deus. Entrou no céu como o nosso precursor. Ele é a porta do céu, o caminho para Deus, o galardoador daqueles que o buscam.
Em terceiro lugar, Jesus demonstrou sua serenidade e rendeu seu espírito (19.30).
Essa é a sétima e última palavra de Cristo na cruz. É a palavra do
contentamento. Foi também o último ato do Salvador antes de expirar, um ato de plena confiança, serenidade e segurança no Pai. Vemos aqui o Salvador outra vez de volta à comunhão com o Pai. Por mais de doze horas, Jesus estivera nas mãos dos homens (Mt 17.22,23; 26.45). Voluntariamente, o Salvador havia se entregado às mãos dos pecadores e agora, voluntariamente, ele entrega seu espírito nas mãos do Pai.13 Até na hora da morte Jesus está no controle. Seu espírito não lhe foi tomado; ele mesmo rendeu seu espírito. Ele voluntariamente se entrega ao Pai.