quarta-feira, 29 de julho de 2026

A necessidade e os efeitos da nova aliança (Hb 9.1-14)- Pr Fernando Pessoa


Capítulo 15

A necessidade e os efeitos da nova aliança (Hb 9.1-14)


Introdução

A Necessidade e os Efeitos da Nova Aliança

Texto Base: Hebreus 9.1–14

Ao longo da história da redenção, Deus sempre desejou restaurar o relacionamento do homem consigo. Entretanto, o pecado criou uma separação entre o Criador e a humanidade (Is 59.2; Rm 3.23). 

Isa 59:2  Mas as vossas iniqüidades fazem divisão entre vós e o vosso Deus, e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça. 

Rom 3:23  Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, 

Para ensinar a gravidade do pecado e preparar seu povo para a obra perfeita de Cristo, Deus estabeleceu a Antiga Aliança por meio de Moisés, com o tabernáculo, o sacerdócio levítico e os sacrifícios de animais (Êx 25–31; Lv 16).

Esses elementos possuíam origem divina e desempenhavam um papel importante na adoração de Israel, mas eram temporários, simbólicos e insuficientes para remover definitivamente o pecado. O tabernáculo representava a presença de Deus, porém o acesso ao Santo dos Santos era restrito ao sumo sacerdote, apenas uma vez por ano. Isso demonstrava que o caminho para a plena comunhão com Deus ainda não havia sido aberto (Hb 9.7-8).

O escritor de Hebreus, inspirado pelo Espírito Santo, mostra que todas essas instituições eram "figura", "sombra" e "modelo" das realidades celestiais (Hb 8.5; 9.9; 10.1). Elas apontavam para uma obra maior que ainda seria realizada pelo Messias. Como afirma o apóstolo Paulo, "a lei serviu de aio para nos conduzir a Cristo" (Gl 3.24).

Quando Cristo veio ao mundo, Ele não apenas aperfeiçoou o antigo sistema religioso, mas inaugurou uma Nova Aliança, superior em todos os aspectos. Diferente dos sacerdotes levíticos, Jesus entrou no verdadeiro santuário celestial; diferente dos sacrifícios repetitivos, ofereceu Seu próprio sangue uma única vez; e, diferente da Antiga Aliança, Sua obra trouxe redenção eterna, purificação da consciência e acesso permanente à presença de Deus (Hb 9.11-14).

O teólogo F. F. Bruce observa que:

"Todo o sistema levítico existia para apontar para Cristo. Quando a realidade chegou, a sombra cumpriu sua missão."

Da mesma forma, John Stott escreveu:

"A cruz não foi um acidente da história, mas o centro do plano eterno de Deus para reconciliar consigo um povo santo."

Assim, Hebreus 9.1-14 responde a duas perguntas fundamentais para a fé cristã:

  • Por que a Antiga Aliança precisava ser substituída?

  • Quais são os efeitos eternos da Nova Aliança estabelecida pelo sangue de Cristo?

I – O Tabernáculo Terrestre e a Necessidade da Nova Aliança

Texto Base: Hebreus 9.1–10

O capítulo 9 de Hebreus marca uma importante transição no argumento do autor. Depois de demonstrar, no capítulo 8, que Cristo é o Mediador de uma Nova Aliança Superior, agora ele apresenta uma comparação entre o antigo sistema de culto e o ministério celestial de Cristo.

O objetivo do escritor não é depreciar o tabernáculo mosaico, mas demonstrar sua natureza provisória. O tabernáculo foi instituído pelo próprio Deus (Êx 25.8-9), Êxo 25:8  E me farão um santuário, e habitarei no meio deles. 

Êxo 25:9  Conforme tudo o que eu te mostrar para modelo do tabernáculo e para modelo de todos os seus móveis, assim mesmo o fareis. 

era santo, legítimo e indispensável para Israel; contudo, nunca foi o fim da revelação divina. Desde sua origem, possuía caráter tipológico, funcionando como uma sombra das realidades celestiais que seriam plenamente reveladas em Cristo (Hb 8.5; 10.1).

Nesse sentido, o tabernáculo era uma verdadeira "pedagogia da redenção". Cada móvel, cada cerimônia, cada sacrifício e cada acesso limitado ensinavam verdades espirituais profundas acerca da santidade divina, da gravidade do pecado e da necessidade de um mediador perfeito.

William Lane observa:

"O tabernáculo representava simultaneamente dois aspectos da revelação divina: Deus habitava entre seu povo, mas permanecia inacessível ao pecador. Sua própria estrutura proclamava tanto a proximidade quanto a distância entre Deus e o homem."

Essa tensão percorre todo o Antigo Testamento e encontra sua resolução somente na cruz de Cristo.


1. O tabernáculo revelava a santidade absoluta de Deus

(Hb 9.1-5)

O autor inicia descrevendo cuidadosamente o santuário terrestre.

Não era um edifício comum.

Foi construído segundo um modelo celestial mostrado a Moisés no Sinai.

"Atenta, pois, que o faças conforme o modelo que te foi mostrado no monte." (Êx 25.40)

O termo grego τύπος (typos) significa modelo, padrão, figura ou representação. Isso significa que o tabernáculo era uma cópia visível de uma realidade invisível.

Philip Hughes comenta:

"O tabernáculo era uma parábola construída em madeira, ouro e tecidos sagrados."

Nada havia de arbitrário.

Cada detalhe possuía significado teológico.


O Lugar Santo

O primeiro compartimento era acessível apenas aos sacerdotes.

Ali encontravam-se três elementos fundamentais.

O Candelabro (Menorah)

(Êx 25.31-40)

Era confeccionado em ouro puro.

Sua luz permanecia continuamente acesa.

Espiritualmente apontava para Cristo.

Jesus declarou:

"Eu sou a luz do mundo." (Jo 8.12)

Assim como a luz iluminava o Lugar Santo, Cristo ilumina todo aquele que está em trevas (Jo 1.4-9).

Joã 1:4  Nele, estava a vida e a vida era a luz dos homens; 

Joã 1:5  e a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. 

Joã 1:6  Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. 

Joã 1:7  Este veio para testemunho para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele. 

Joã 1:8  Não era ele a luz, mas veio para que testificasse da luz. 

Joã 1:9  Ali estava a luz verdadeira, que alumia a todo homem que vem ao mundo, 


Matthew Henry observa:

"Sem a luz do candelabro, o sacerdote não poderia exercer seu ministério. Sem Cristo, ninguém pode conhecer verdadeiramente a Deus."


A Mesa dos Pães da Proposição

Doze pães permaneciam continuamente diante do Senhor.

Representavam:

  • as doze tribos;

  • a comunhão permanente com Deus;

  • a provisão divina.

Cristo cumpre esse símbolo ao afirmar:

"Eu sou o pão da vida." (Jo 6.35)

Ele é o verdadeiro alimento espiritual que satisfaz plenamente a alma.


O Altar do Incenso

Embora Hebreus o relacione ao Santo dos Santos por sua função litúrgica no Dia da Expiação, ele ficava diante do véu (Êx 30.6).

Êxo 30:6  E o porás diante do véu que está diante da arca do Testemunho, diante do propiciatório que está sobre o Testemunho, onde me ajuntarei contigo. 



O incenso simbolizava:

  • oração;

  • intercessão;

  • adoração.

"Suba à tua presença a minha oração como incenso." (Sl 141.2)

No Novo Testamento:

"As taças de ouro cheias de incenso são as orações dos santos." (Ap 5.8)

Cristo tornou-se o grande Intercessor (Hb 7.25).


O Santo dos Santos

Separado por um espesso véu, era o lugar da manifestação especial da glória divina (Shekinah).

Ali encontrava-se a Arca da Aliança.


O vaso de ouro contendo o maná

Lembrava que Deus sustentou Israel durante quarenta anos.

Cristo é o verdadeiro Maná.

"Eu sou o pão vivo que desceu do céu." (Jo 6.51)


A vara de Arão

(Nm 17)

A vara florescida confirmava que o sacerdócio havia sido escolhido soberanamente por Deus.

Ela simboliza:

  • autoridade divina;

  • vida surgindo da morte;

  • sacerdócio legítimo.

Cristo é o Sumo Sacerdote escolhido eternamente segundo a ordem de Melquisedeque (Hb 5.5-10).


As tábuas da Lei

Representavam:

  • a justiça;

  • a aliança;

  • a santidade.

A Lei revelava o caráter santo de Deus, mas também condenava o pecador.


O Propiciatório

Era a tampa da Arca.

Ali o sangue era aspergido no Dia da Expiação.

Era o local onde justiça e misericórdia se encontravam.

Paulo utiliza a mesma ideia ao afirmar:

"Deus o propôs como propiciação pelo seu sangue." (Rm 3.25)

Cristo tornou-se o verdadeiro propiciatório.

F. F. Bruce afirma:

"O propiciatório apontava para a obra pela qual Cristo satisfaria plenamente a justiça divina e abriria definitivamente o caminho da reconciliação."


Lição Teológica

Todo o tabernáculo ensinava uma verdade fundamental:

Deus é absolutamente santo.

O pecador não podia entrar na presença divina de qualquer maneira.

A santidade exige expiação.

Por isso Pedro cita Levítico:

"Sede santos, porque Eu sou santo." (1Pe 1.16)


2. O acesso à presença de Deus ainda era limitado

(Hb 9.6-8)

Heb 9:6  Ora, estando essas coisas assim preparadas, a todo o tempo entravam os sacerdotes no primeiro tabernáculo, cumprindo os serviços; 

Heb 9:7  mas, no segundo, só o sumo sacerdote, uma vez no ano, não sem sangue, que oferecia por si mesmo e pelas culpas do povo; 

Heb 9:8  dando nisso a entender o Espírito Santo que ainda o caminho do Santuário não estava descoberto, enquanto se conservava em pé o primeiro tabernáculo, 


A arquitetura do tabernáculo já pregava um sermão.

O Lugar Santo era acessível apenas aos sacerdotes.

O Santo dos Santos permanecia fechado.

O acesso era extremamente restrito.

O sumo sacerdote entrava:

  • uma única vez por ano;

  • sozinho;

  • com sangue;

  • após rigorosa purificação;

  • sob risco de morte.

(Lv 16)

Esse sistema revelava uma verdade dolorosa:

o pecado ainda impedia a plena comunhão entre Deus e o homem.

Hebreus 9.8 afirma:

"O Espírito Santo estava indicando que o caminho do Santo Lugar ainda não havia sido manifestado."

Simon Kistemaker comenta:

"O véu era mais do que uma cortina física; representava a separação espiritual provocada pelo pecado."

John Owen acrescenta:

"Enquanto o véu permanecia intacto, Deus declarava que ainda não existia acesso definitivo à Sua presença."


O véu rasgado

Quando Cristo morreu,

"o véu do templo rasgou-se em dois, de alto a baixo."

(Mt 27.51)

Foi Deus quem rasgou o véu.

Não foi uma ação humana.

Isso simboliza:

  • o fim da separação;

  • o acesso livre;

  • a abertura do caminho celestial;

  • a consumação da Nova Aliança.

Hebreus 10.19-20 declara:

"Temos ousadia para entrar no Santo dos Santos pelo sangue de Jesus."


3. Os sacrifícios eram incapazes de aperfeiçoar a consciência

(Hb 9.9-10)

Heb 9:9  que é uma alegoria para o tempo presente, em que se oferecem dons e sacrifícios que, quanto à consciência, não podem aperfeiçoar aquele que faz o serviço, 

Heb 9:10  consistindo somente em manjares, e bebidas, e várias abluções e justificações da carne, impostas até ao tempo da correção


Aqui encontramos o ponto culminante do argumento.

Os sacrifícios do Antigo Testamento eram eficazes apenas cerimonialmente.

Purificavam exteriormente.

Mas não transformavam o interior.

O verbo grego τελειόω (teleioō) significa levar à perfeição, completar plenamente.

Os sacrifícios jamais podiam produzir essa perfeição espiritual.

O problema era a consciência.

A culpa permanecia.

O pecado era coberto, mas não removido definitivamente.

F. F. Bruce escreve:

"O sistema levítico tratava da impureza ritual; Cristo trata da culpa moral."


A insuficiência da religião exterior

O autor menciona:

  • alimentos;

  • bebidas;

  • purificações;

  • ordenanças externas.

Tudo isso possuía valor pedagógico.

Entretanto, nenhum ritual podia regenerar o coração.

Jeremias já havia profetizado:

"Porei a minha lei no seu interior."

(Jr 31.33)

Ezequiel anunciou:

"Dar-vos-ei coração novo."

(Ez 36.26)

Essas promessas encontram seu cumprimento na Nova Aliança inaugurada por Cristo.

Como observa William Lane:

"A antiga ordem regulava o comportamento; a nova transforma a natureza humana."


Aplicações Práticas

1. Deus continua sendo santo

A graça não diminuiu a santidade divina.

Hoje entramos na presença de Deus com liberdade, mas nunca com irreverência (Hb 12.28-29). A reverência cristã nasce da consciência de que o acesso foi conquistado pelo sangue de Cristo, não por mérito humano.

2. A religião exterior não substitui a transformação interior

Participar de cultos, cumprir tradições religiosas ou exercer ministérios não é suficiente se o coração permanece distante de Deus (Mc 7.6-7). Somente a obra regeneradora do Espírito Santo produz uma consciência purificada e uma vida transformada (Hb 9.14; Tt 3.5).

3. Cristo é o cumprimento de todo o sistema levítico

O tabernáculo, os sacerdotes, os sacrifícios, a arca, o propiciatório e o Dia da Expiação convergem para Jesus. Nele, as sombras cedem lugar à realidade (Cl 2.16-17; Hb 10.1). A leitura do Antigo Testamento alcança sua plenitude quando vista à luz da pessoa e da obra de Cristo (Lc 24.27).

4. O acesso a Deus é um privilégio da Nova Aliança

Aquilo que era restrito ao sumo sacerdote uma vez por ano tornou-se uma realidade permanente para todos os que estão em Cristo. Por meio dele, todo crente pode aproximar-se "com sincero coração, em plena certeza de fé" (Hb 10.22), desfrutando comunhão contínua com o Pai.

Conclusão

O tabernáculo terrestre foi uma obra divinamente instituída para revelar a santidade de Deus, a seriedade do pecado e a necessidade de um mediador. Sua estrutura, seus móveis e seus rituais proclamavam, de forma pedagógica, que o ser humano não podia aproximar-se de Deus por seus próprios méritos. O véu fechado testemunhava a separação causada pelo pecado, e os sacrifícios repetidos evidenciavam que a culpa ainda não havia sido removida de maneira definitiva.

Entretanto, todo esse sistema apontava para uma realidade maior. O tabernáculo era apenas a sombra; Cristo é a substância. Os sacerdotes eram transitórios; Cristo é o Sumo Sacerdote eterno. O sangue de animais oferecia purificação cerimonial; o sangue de Jesus concede redenção eterna e purifica a consciência (Hb 9.12-14). Assim, Hebreus 9.1–10 prepara o leitor para contemplar a excelência da Nova Aliança, na qual o próprio Filho de Deus entra no verdadeiro santuário celestial, abre um novo e vivo caminho e concede acesso permanente à presença do Pai para todos os que nele creem. Esse é o fundamento da esperança cristã e a demonstração suprema da superioridade da obra redentora de Jesus Cristo.

II – O Tabernáculo Celeste e os Efeitos da Nova Aliança

Texto Base: Hebreus 9.11–14

Heb 9:11  Mas, vindo Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação, 

Heb 9:12  nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção. 

Heb 9:13  Porque, se o sangue dos touros e bodes e a cinza de uma novilha, esparzida sobre os imundos, os santificam, quanto à purificação da carne, 

Heb 9:14  quanto mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará a vossa consciência das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo? 


Após demonstrar as limitações do tabernáculo terrestre e dos sacrifícios levíticos (Hb 9.1–10), o autor de Hebreus apresenta agora o clímax de sua argumentação: Cristo é o verdadeiro Sumo Sacerdote que entrou no santuário celestial e realizou uma redenção eterna. Enquanto os sacerdotes da Antiga Aliança ministravam em um tabernáculo feito por mãos humanas, Jesus ministra no verdadeiro santuário, na própria presença de Deus.

Esta passagem é considerada por muitos estudiosos o coração da cristologia sacerdotal de Hebreus. Aqui, o escritor mostra que a Nova Aliança não apenas substitui a antiga, mas produz efeitos infinitamente superiores: redenção eterna, purificação da consciência e acesso permanente a Deus.

Como afirma William Lane:

"A entrada de Cristo no santuário celestial representa o cumprimento definitivo de tudo aquilo que o Dia da Expiação apenas simbolizava."


1. Cristo entrou no verdadeiro Tabernáculo Celestial

(Hb 9.11)

"Mas, vindo Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação."

A expressão "Mas, vindo Cristo" marca uma mudança decisiva na história da redenção. O antigo sistema cede lugar à realidade definitiva.

O autor apresenta quatro contrastes entre Cristo e o sacerdócio levítico:

Antiga Aliança

Nova Aliança

Tabernáculo terreno

Tabernáculo celestial

Sacerdotes mortais

Cristo, Sumo Sacerdote eterno

Sacrifícios repetidos

Sacrifício único

Redenção temporária

Redenção eterna

O "maior e mais perfeito tabernáculo" não é uma construção material. Trata-se da própria presença de Deus, o verdadeiro santuário celestial.

Jesus não entrou em um templo construído por homens.

Entrou no céu.


Hebreus 9.24 declara:

"Porque Cristo não entrou em santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus."

F. F. Bruce comenta:

"Enquanto o sumo sacerdote entrava apenas na representação terrena da presença divina, Cristo entrou na própria realidade celestial."

Isso significa que Seu sacerdócio é perfeito, permanente e eterno.


O verdadeiro Sumo Sacerdote

No Antigo Testamento, o sumo sacerdote era apenas um representante temporário.

Cristo é diferente.

Ele reúne em si:

  • o sacerdote;

  • o altar;

  • o sacrifício;

  • o cordeiro;

  • o mediador.

Tudo converge para Ele.

Como afirma João Batista:

"Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo." (Jo 1.29)



2. Cristo realizou uma redenção eterna

(Hb 9.12)

"Nem por sangue de bodes e de bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez por todas no Santo dos Santos, havendo obtido eterna redenção."

Aqui encontramos uma das maiores declarações da obra expiatória de Cristo.

O autor apresenta três verdades fundamentais.


a) Cristo ofereceu Seu próprio sangue

Os sacerdotes levíticos ofereciam sangue alheio.

Cristo ofereceu Seu próprio sangue.

Isso revela o valor infinito do sacrifício.

Pedro afirma:

"Fostes resgatados... pelo precioso sangue de Cristo." (1Pe 1.18-19)

John Owen escreve:

"O valor da redenção depende da dignidade da pessoa que derramou o sangue."

Como Cristo é o Filho eterno de Deus, Seu sacrifício possui valor infinito.


b) Cristo entrou uma única vez

O sacerdote entrava todos os anos.

Cristo entrou uma vez.

O termo grego ἐφάπαξ (ephapax) significa "uma vez por todas".

Seu sacrifício nunca precisará ser repetido.

Hebreus 10.12 afirma:

"Havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados."

A repetição dos sacrifícios antigos demonstrava sua insuficiência.

A singularidade do sacrifício de Cristo demonstra sua perfeição.

Matthew Henry observa:

"Aquilo que precisava ser repetido era imperfeito; aquilo que é perfeito jamais necessita de repetição."


c) Cristo conquistou redenção eterna

A palavra "redenção" (λύτρωσις – lýtrōsis) significa libertação mediante pagamento de resgate.

Na Antiga Aliança:

  • havia perdão provisório;

  • cobertura do pecado;

  • purificação cerimonial.

Na Nova Aliança:

há libertação definitiva.

Cristo não tornou possível a salvação.

Ele a conquistou.

William Lane comenta:

"A redenção obtida por Cristo não é potencial; é efetivamente realizada."

Por isso Paulo afirma:

"Nele temos a redenção pelo seu sangue." (Ef 1.7)


3. O sangue de Cristo purifica a consciência

(Hb 9.13-14)

Esses versículos apresentam um argumento do menor para o maior.

Se o sangue dos animais podia produzir purificação cerimonial,

quanto mais

o sangue de Cristo produzirá purificação espiritual.


O contraste entre dois sangues

O sangue dos animais

Purificava:

  • exteriormente;

  • ritualmente;

  • temporariamente.

Não podia transformar o coração.


O sangue de Cristo

Purifica:

  • a consciência;

  • o coração;

  • o interior do homem.

É exatamente isso que Jeremias havia profetizado acerca da Nova Aliança.

"Perdoarei a sua maldade e nunca mais me lembrarei dos seus pecados."

(Jr 31.34)


A consciência purificada

O autor afirma:

"...purificará a nossa consciência das obras mortas."

A consciência é o tribunal interior do ser humano.

Mesmo após o perdão humano, muitos continuam presos:

  • pela culpa;

  • pela vergonha;

  • pela condenação.

Somente Cristo pode purificar completamente a consciência.

F. F. Bruce escreve:

"O que a Lei jamais conseguiu fazer externamente, Cristo realizou internamente."


O Espírito eterno

Hebreus afirma:

"Pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu imaculado a Deus."

Essa expressão possui grande riqueza teológica.

Mostra a atuação da Trindade na redenção.

O Pai recebe o sacrifício.

O Filho oferece a si mesmo.

O Espírito Santo fortalece e sustenta essa oferta perfeita.

Toda a Trindade participa da obra da salvação.


Servir ao Deus vivo

O objetivo da redenção não é apenas retirar a culpa.

É produzir adoração.

O verbo servir (λατρεύω – latreuō) descreve culto, serviço sacerdotal e dedicação total.

O cristão foi purificado para viver uma vida de adoração.

João Calvino comenta:

"Cristo não morreu apenas para nos livrar da condenação, mas para restaurar em nós o verdadeiro culto a Deus."


Aplicações Práticas

1. Nossa segurança está na obra consumada de Cristo

A salvação não depende de obras humanas nem de rituais religiosos. Ela repousa exclusivamente no sacrifício perfeito de Jesus, que entrou no santuário celestial e garantiu redenção eterna para os que nele creem (Hb 10.14).

2. A consciência purificada produz uma vida de liberdade

Muitos vivem sob o peso da culpa, mesmo após terem sido perdoados. O sangue de Cristo não apenas cancela a condenação diante de Deus, mas também purifica a consciência, permitindo que o crente viva com paz, confiança e alegria na presença do Senhor (Rm 8.1).

3. O verdadeiro culto nasce de um coração transformado

Deus não procura apenas práticas religiosas externas, mas adoradores que o sirvam "em espírito e em verdade" (Jo 4.23-24). A Nova Aliança forma um povo regenerado, capacitado pelo Espírito Santo para oferecer a Deus um culto agradável e uma vida de santidade.

4. Cristo continua intercedendo por seu povo

Porque entrou no verdadeiro tabernáculo celestial, Jesus permanece diante do Pai como nosso Advogado e Sumo Sacerdote (Hb 7.25). Isso assegura que nossa comunhão com Deus está fundamentada na obra contínua de Cristo, e não em nossa própria capacidade.

Conclusão

Hebreus 9.11–14 revela a superioridade absoluta da obra sacerdotal de Cristo. O tabernáculo terrestre era apenas uma sombra; Cristo entrou no verdadeiro santuário celestial. Os sacerdotes levíticos ofereciam sangue de animais repetidas vezes; Cristo ofereceu seu próprio sangue uma única vez, obtendo redenção eterna. Enquanto a Antiga Aliança promovia apenas purificação cerimonial, a Nova Aliança alcança o íntimo do ser humano, purificando a consciência, removendo a culpa e restaurando a comunhão com Deus.

Essa passagem proclama que a salvação realizada por Cristo é completa, definitiva e suficiente. O crente não depende mais de sacrifícios repetidos ou de mediações humanas, pois possui um Sumo Sacerdote perfeito que vive para sempre, intercede continuamente e abriu um novo e vivo caminho até a presença do Pai. É nessa obra consumada que repousam a esperança, a segurança e a adoração da Igreja.


 

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