Sermão: "A Mesa da Cruz: O Servo Sofredor e o Significado da Santa Ceia"
Texto Base: Isaías 53:1–12
Tema: A Santa Ceia nos faz lembrar que a nossa salvação custou o sofrimento do Servo de Deus.
Objetivo: Mostrar que a Santa Ceia não é apenas uma lembrança histórica, mas uma celebração da obra completa de Cristo anunciada séculos antes pelo profeta Isaías.
INTRODUÇÃO
Entre todos os capítulos do Antigo Testamento, Isaías 53 ocupa um lugar singular. Muitos estudiosos o chamam de "o Evangelho segundo Isaías", porque descreve com impressionante riqueza de detalhes a morte substitutiva de Cristo aproximadamente 700 anos antes da crucificação.
O profeta escreveu durante o reinado de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias (Is 1.1). Naquele tempo, Judá caminhava para o juízo divino por causa da idolatria, corrupção e rebeldia. Contudo, Deus promete que a salvação viria através de um Servo, não de um guerreiro.
O mais extraordinário é que Isaías descreve fatos que somente aconteceriam séculos depois:
Cristo rejeitado;
Cristo ferido;
Cristo silencioso diante dos acusadores;
Cristo crucificado entre malfeitores;
Cristo sepultado com um rico;
Cristo ressuscitado.
Tudo isso aparece em Isaías 53.
Como observa John Oswalt, em seu comentário de Isaías:
"Isaías 53 é o ponto mais alto da revelação do Antigo Testamento acerca da obra redentora do Messias."
Enquanto celebramos a Santa Ceia, não estamos apenas lembrando um sofrimento. Estamos proclamando que cada detalhe daquela mesa aponta para a cruz, e que a cruz já havia sido anunciada pelo Espírito Santo muitos séculos antes.
A Santa Ceia nos convida a olhar para três grandes verdades presentes em Isaías 53.
I. A SANTA CEIA NOS LEMBRA DO SACRIFÍCIO SUBSTITUTIVO DE CRISTO
Texto
"Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades..." (Isaías 53.4)
"O castigo que nos trouxe a paz estava sobre ele." (v.5)
Contexto Teológico
Aqui aparece uma das maiores doutrinas da Bíblia:
A Substituição Penal.
Jesus não morreu apenas por amor.
Ele morreu em nosso lugar.
A palavra hebraica נָשָׂא (nasa') significa:
carregar;
levar;
suportar um peso.
É a mesma ideia do bode emissário em Levítico 16.
Naquele ritual:
o pecado era colocado sobre outro.
Isaías diz:
Cristo seria esse Cordeiro definitivo.
Ligação com a Santa Ceia
Quando Jesus tomou o pão, afirmou:
"Isto é o meu corpo que é dado por vós."
Não foi um acidente.
Foi substituição.
Quando bebemos do cálice lembramos:
"Ele tomou o meu lugar."
Comentário Bíblico
Matthew Henry
"Cristo levou aquilo que jamais poderíamos suportar."
Charles Spurgeon
"Ou Cristo suporta a ira de Deus, ou o pecador a suportará eternamente."
Aplicação
Na Ceia:
Não celebramos nosso mérito.
Celebramos que havia um lugar reservado para nós na cruz...
...e Cristo ocupou esse lugar.
II. A SANTA CEIA NOS LEMBRA DO ALTO PREÇO DA NOSSA REDENÇÃO
Texto Base
"Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados." (Isaías 53.5)
"Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados... mas pelo precioso sangue de Cristo, como de cordeiro sem defeito e sem mácula." (1 Pedro 1.18-19)
Introdução do Ponto
Vivemos em uma geração que conhece o valor de muitas coisas, mas desconhece o preço da redenção.
A Bíblia ensina que a salvação é gratuita para quem recebe, mas custou infinitamente caro para quem a conquistou.
A Santa Ceia nos leva a recordar esse preço.
Cada vez que olhamos para o pão e para o cálice, somos lembrados de que nossa redenção não foi conquistada por dinheiro, religião, boas obras ou esforço humano.
Ela foi comprada pelo sangue do Filho de Deus.
Como escreveu Paulo:
"Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus." (1 Coríntios 6.20)
A Ceia não é apenas uma celebração da graça.
Ela também é um memorial do preço pago por essa graça.
O Significado das "Pisaduras"
Isaías declara:
"...pelas suas pisaduras fomos sarados."
A palavra hebraica utilizada é:
חַבּוּרָה (chabburah)
Seu significado é muito mais profundo do que uma simples ferida.
Refere-se a:
marcas abertas provocadas por açoites;
hematomas profundos;
cortes que rasgam a pele;
lesões produzidas por espancamentos violentos.
Era um termo usado para descrever alguém brutalmente castigado.
Isaías não está falando apenas de sofrimento emocional.
Ele descreve um corpo completamente mutilado.
Setecentos anos antes da crucificação existir como método romano de execução, o profeta contempla, em visão profética, o Servo Sofredor coberto de feridas.
A Crueldade da Paixão de Cristo
Quando pensamos na cruz, frequentemente imaginamos apenas o momento em que Jesus foi pregado no madeiro.
Entretanto, a crucificação começou muito antes do Calvário.
1. Jesus foi traído
Mateus 26.47-50
Foi entregue por um dos Seus próprios discípulos.
A traição veio de alguém que caminhava diariamente ao Seu lado.
2. Jesus foi preso como criminoso
João 18.12
O Criador do universo permitiu ser amarrado por Suas criaturas.
3. Foi abandonado
Mateus 26.56
Todos fugiram.
Aquele que nunca abandonou ninguém experimentou a solidão absoluta.
4. Sofreu zombarias
Mateus 27.27-31
Os soldados:
cuspiram em Seu rosto;
bateram com uma cana em Sua cabeça;
ajoelhavam ironicamente chamando-O de rei.
O Rei dos reis foi ridicularizado por homens pecadores.
5. Sofreu os açoites romanos
Antes da crucificação havia a flagelação.
O condenado era amarrado a uma coluna.
Recebia golpes com o flagrum, um chicote romano composto por várias tiras de couro contendo pedaços de osso e chumbo nas extremidades.
Cada golpe rasgava:
pele;
músculos;
vasos sanguíneos.
Muitos morriam somente nessa etapa.
Por isso Isaías afirma:
"Pelas suas pisaduras..."
Não eram pequenas marcas.
Era um corpo completamente dilacerado.
6. A Coroa de Espinhos
Mateus 27.29
Os espinhos provavelmente pertenciam a plantas comuns da região da Judeia, com longos espinhos rígidos.
A coroa não era apenas um instrumento de zombaria.
Representava a maldição do pecado.
Após a queda, Deus disse:
"Espinhos e abrolhos também te produzirá." (Gênesis 3.18)
Cristo leva sobre Sua cabeça justamente o símbolo da maldição que o pecado trouxe ao mundo.
O segundo Adão assume a maldição do primeiro Adão.
7. O Carregamento da Cruz
João 19.17
Jesus carregou o madeiro pelas ruas de Jerusalém.
Enfraquecido pela perda de sangue, caiu pelo caminho.
Simão Cireneu foi obrigado a ajudá-Lo.
Cada passo lembrava:
o peso do pecado da humanidade.
8. A Crucificação
Os pregos atravessaram:
mãos;
pés.
O condenado precisava levantar o corpo para conseguir respirar.
Cada respiração era uma dor.
Além da dor física havia:
sede intensa;
perda de sangue;
asfixia progressiva.
Mas o maior sofrimento ainda não era físico.
O Sofrimento Espiritual Foi Maior que o Físico
Na cruz ocorreu algo invisível aos olhos humanos.
Isaías havia anunciado:
"O Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos." (Isaías 53.6)
Paulo declara:
"Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós." (2 Coríntios 5.21)
Cristo experimentou o peso da culpa da humanidade.
Não porque fosse pecador.
Mas porque assumiu judicialmente nossos pecados.
Foi nesse momento que clamou:
"Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (Mateus 27.46)
Não houve ruptura na essência da Trindade, mas o Filho experimentou, em Sua natureza humana e em Sua missão redentora, o abandono judicial decorrente do pecado que carregava. Ele sofreu o juízo que era devido a nós, para que nunca precisássemos experimentar a condenação eterna (Romanos 8.1).
Pedro Explica Isaías
Pedro praticamente comenta Isaías 53.
"Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados." (1 Pedro 2.24)
Observe:
Pedro não fala apenas do sofrimento.
Ele explica seu propósito.
Cristo sofreu:
para remover nossos pecados;
para nos libertar do domínio do pecado;
para nos conduzir a uma nova vida.
A cura mencionada por Isaías alcança sua plenitude na restauração espiritual e na reconciliação com Deus, sem excluir a esperança da plena redenção do corpo na consumação do Reino (Romanos 8.23).
A Santa Ceia Revela o Valor do Sangue
Na última Ceia Jesus declarou:
"Isto é o meu corpo, que é dado por vós..." (Lucas 22.19)
Depois tomou o cálice.
"Este é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado por muitos para remissão dos pecados." (Mateus 26.28)
O pão partido representa:
o corpo entregue.
O cálice representa:
o sangue derramado.
Entretanto, é importante compreender:
Na cruz nada foi simbólico.
O sofrimento foi real.
O sangue foi real.
A morte foi real.
Por isso a Ceia possui tanto significado.
Ela aponta para um acontecimento histórico que transformou eternamente a história da humanidade.
O Alto Preço da Redenção
Pedro afirma:
"Não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados..." (1 Pedro 1.18)
No mundo antigo, escravos eram comprados mediante pagamento.
Pedro utiliza essa linguagem para afirmar:
Nossa liberdade não foi adquirida com riqueza material.
Foi comprada pelo sangue do Filho de Deus.
Paulo completa:
"Porque fostes comprados por preço." (1 Coríntios 6.20)
Esse preço foi infinito.
Porque infinito é o valor daquele que morreu.
A redenção custou o sangue do Deus-Homem.
Comentários Teológicos
John Stott
"Na cruz Deus satisfez Sua justiça e revelou Seu amor ao mesmo tempo. O amor providenciou aquilo que a justiça exigia."
Matthew Henry
"Cada ferida de Cristo proclama tanto a gravidade do pecado quanto a grandeza da graça. Seu sofrimento foi voluntário, vicário e suficiente para salvar todo aquele que crê."
Warren Wiersbe
"Quando participamos da Ceia, olhamos para trás e lembramos da cruz; olhamos para dentro e examinamos nosso coração; olhamos para frente e aguardamos Sua volta."
John MacArthur
"A cruz revela duas verdades inseparáveis: Deus odeia o pecado com justiça perfeita e ama o pecador com amor perfeito. O preço da redenção demonstra ambas."
Aplicação
A Santa Ceia nos impede de banalizar o pecado.
Cada pedaço do pão nos lembra que o corpo de Cristo foi entregue.
Cada gole do cálice nos lembra que Seu sangue foi derramado.
Quem contempla verdadeiramente a cruz não trata a graça como licença para pecar, mas como um chamado à santidade. O preço da redenção nos constrange a viver para Aquele que morreu e ressuscitou por nós (2 Coríntios 5.14-15).
Antes de participarmos da Mesa do Senhor, precisamos lembrar que nossa salvação custou as feridas do Servo Sofredor. O pecado não é pequeno, pois exigiu a morte do Filho de Deus. A graça não é barata, pois foi comprada pelo sangue do Cordeiro. Por isso, a Santa Ceia é um convite à gratidão, ao arrependimento, à reverência e a uma vida de santidade.
Ao nos aproximarmos da Mesa, fazemos eco às palavras do apóstolo Paulo:
"Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice." (1 Coríntios 11.28)
Quem compreende o preço da cruz jamais verá a Santa Ceia como um simples ritual. Verá nela o memorial vivo do amor incomparável de Cristo, que entregou Seu corpo e derramou Seu sangue para nos redimir, reconciliar e fazer de nós um povo santo para a glória de Deus.
III. A SANTA CEIA NOS LEMBRA QUE A VITÓRIA VEIO PELO SOFRIMENTO
Texto Base
"Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias, e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos." (Isaías 53.10)
"Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito..." (Isaías 53.11)
Introdução do Ponto
A cruz não foi o fim da história.
Foi o caminho para a glória.
Isaías 53 começa com rejeição, passa pelo sofrimento, alcança a morte, mas termina com triunfo.
Esse é um dos aspectos mais extraordinários da profecia.
O Servo morre...
mas continua vivendo.
É oferecido como sacrifício...
mas vê a sua descendência.
É esmagado...
mas é exaltado.
Isso só pode ser plenamente explicado pela ressurreição de Cristo.
A Santa Ceia nos conduz ao Calvário, mas não nos deixa aos pés da cruz. Ela nos leva ao túmulo vazio, ao trono celestial e nos faz olhar para o dia em que Cristo voltará em glória.
O Mistério da Vitória Através do Sofrimento
A lógica humana afirma:
primeiro vem a vitória,
depois a celebração.
O Reino de Deus ensina exatamente o contrário.
Primeiro vem a cruz.
Depois a coroa.
Primeiro a humilhação.
Depois a exaltação.
Foi exatamente isso que Jesus ensinou aos discípulos.
"Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória?" (Lucas 24.26)
O sofrimento nunca foi um acidente.
Foi o caminho estabelecido por Deus para a redenção.
Pedro declara:
"Conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos por amor de vós." (1 Pedro 1.20)
A cruz fazia parte do plano eterno de Deus.
A Oferta pela Culpa (Asham)
Isaías afirma:
"...quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado..."
A expressão hebraica utilizada é:
אָשָׁם (Asham)
Não significa simplesmente "pecado".
É um termo técnico utilizado em Levítico 5.14–6.7 para designar a oferta pela culpa (guilt offering).
Essa oferta era apresentada quando alguém precisava reparar sua culpa diante de Deus.
Ela ensinava que:
a culpa exige pagamento;
o pecado exige substituição;
sem derramamento de sangue não há perdão.
O pecador levava um cordeiro.
O cordeiro morria.
O culpado saía livre.
Isaías declara que Cristo seria o verdadeiro Asham.
Ele não apenas apresentaria a oferta.
Ele seria a própria oferta.
O autor de Hebreus confirma:
"Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez por todas no Santo dos Santos, tendo obtido eterna redenção." (Hebreus 9.12)
Cristo é ao Mesmo Tempo Sacerdote, Altar e Sacrifício
Em todo o Antigo Testamento existiam funções separadas.
O sacerdote oferecia.
O altar recebia.
O cordeiro era sacrificado.
Em Cristo tudo converge.
Ele é:
o Sumo Sacerdote que oferece (Hebreus 4.14-16);
o Cordeiro que é imolado (João 1.29);
o Altar que santifica a oferta (Hebreus 13.10);
e o próprio Sacrifício perfeito (Hebreus 10.10-14).
Nenhum sacerdote jamais ofereceu a si mesmo.
Cristo ofereceu Seu próprio corpo.
Por isso Sua obra é perfeita e definitiva.
A Ressurreição Está Profetizada em Isaías 53
Observe cuidadosamente.
Isaías diz:
"...verá a sua posteridade..."
Como alguém morto pode ver sua descendência?
O texto continua.
"...prolongará os seus dias..."
Como alguém sacrificado pode ter seus dias prolongados?
A resposta é uma só.
Ressurreição.
Isaías contempla profeticamente aquilo que o Novo Testamento revela plenamente.
Pedro pregou:
"Ao qual Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte..." (Atos 2.24)
Paulo escreveu:
"Cristo morreu pelos nossos pecados... foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras." (1 Coríntios 15.3-4)
Sem a ressurreição, a cruz seria apenas uma tragédia.
Com a ressurreição, ela se torna a maior vitória da história.
O Fruto do Penoso Trabalho
Isaías declara:
"Ele verá o fruto do penoso trabalho da sua alma e ficará satisfeito." (Isaías 53.11)
A expressão "penoso trabalho" transmite a ideia de intenso sofrimento, fadiga e aflição.
Entretanto, o texto afirma que Cristo contemplaria o resultado de Seu sofrimento.
Qual é esse fruto?
Uma multidão redimida.
Homens e mulheres reconciliados com Deus.
Pecadores transformados em filhos.
A Igreja é fruto da cruz.
Cada salvo é prova de que o sofrimento de Cristo não foi em vão.
Por isso o escritor aos Hebreus afirma:
"Pela alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha." (Hebreus 12.2)
A alegria futura sustentou Cristo na dor presente.
A Santa Ceia Anuncia uma Esperança Viva
Na última Ceia Jesus fez uma declaração extraordinária.
"Não beberei deste fruto da videira até aquele dia em que o beba novo convosco no Reino de meu Pai." (Mateus 26.29)
A Ceia aponta para o passado.
Mas também aponta para o futuro.
Ela anuncia que haverá um último encontro.
O próprio Cristo servirá Seu povo no Reino consumado.
Assim, a Santa Ceia é um memorial da cruz e uma antecipação do banquete escatológico.
João contempla esse dia em visão.
"Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro." (Apocalipse 19.9)
Toda celebração da Ceia é um ensaio para as Bodas do Cordeiro.
As Três Dimensões da Santa Ceia
Paulo resume esse significado.
"Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor até que venha." (1 Coríntios 11.26)
A Santa Ceia possui três dimensões inseparáveis.
1. Olha para trás
Recorda o sacrifício consumado.
Cristo morreu uma única vez.
Sua obra é perfeita.
"Está consumado." (João 19.30)
Não existe novo sacrifício.
Existe memória do único e suficiente sacrifício.
2. Olha para dentro
Antes de participar da Mesa, cada crente é chamado ao exame espiritual.
"Examine-se, pois, o homem a si mesmo..." (1 Coríntios 11.28)
A Ceia não é momento de perfeição.
É momento de arrependimento.
Ela nos leva a confessar pecados, restaurar relacionamentos e renovar nossa comunhão com Deus.
Como escreveu D. Martyn Lloyd-Jones:
"O autoexame cristão não produz desespero; conduz o crente novamente à suficiência da graça de Cristo."
3. Olha para frente
A Igreja vive na expectativa da volta de Cristo.
Cada Ceia proclama:
Ele morreu.
Ele ressuscitou.
Ele voltará.
A esperança cristã não termina no Calvário.
Ela culmina na Nova Jerusalém.
Paulo afirma:
"A nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador." (Filipenses 3.20)
A Mensagem da Mesa
Quando contemplamos Isaías 53 à luz da instituição da Santa Ceia, percebemos que cada elemento da Mesa proclama o Evangelho.
O pão nos lembra o corpo ferido.
O cálice anuncia o sangue derramado.
A mesa proclama a Nova Aliança prometida em Jeremias 31.31-34.
A cruz revela o amor, a justiça e a santidade de Deus.
O túmulo vazio anuncia que a morte foi vencida.
E a promessa da volta de Cristo alimenta nossa esperança.
A Santa Ceia não é um simples ritual religioso.
Ela é a pregação visível do Evangelho.
Como disse Agostinho de Hipona, os sacramentos são "a Palavra visível": aquilo que ouvimos na proclamação do Evangelho é visto e celebrado na Mesa do Senhor.
Comentários Teológicos
John Calvin
"Na Ceia, Cristo não é novamente sacrificado; somos espiritualmente alimentados pelos benefícios do único sacrifício perfeito realizado na cruz."
John Stott
"A cruz não foi derrota, mas vitória. O aparente fracasso do Calvário tornou-se o triunfo definitivo do amor e da justiça de Deus."
F. F. Bruce
"A ressurreição é a declaração pública do Pai de que o sacrifício do Filho foi plenamente aceito."
Warren Wiersbe
"A Ceia une três tempos: lembra o passado da cruz, fortalece o presente da comunhão e aponta para o futuro glorioso da volta de Cristo."
CONCLUSÃO
Isaías contemplou, pela fé profética, aquilo que nós hoje vemos à luz do Evangelho cumprido. Setecentos anos antes do nascimento de Jesus, o Espírito Santo revelou que o Servo do Senhor seria traspassado por nossas transgressões, esmagado por nossas iniquidades, oferecido como sacrifício pela culpa e, depois de sofrer, veria o fruto do penoso trabalho de sua alma. A cruz nunca foi um acidente da história; foi o centro do plano eterno de Deus para reconciliar consigo um povo santo (Efésios 1.4-10).
Na noite em que foi traído, Jesus tomou o pão e o cálice e instituiu a Santa Ceia para que Sua Igreja jamais se esquecesse desse acontecimento. Sempre que nos reunimos em torno da Mesa do Senhor, proclamamos três verdades eternas: Cristo morreu por nossos pecados, Cristo ressuscitou para nossa justificação e Cristo voltará para buscar a Sua Igreja.
Como afirmou John Calvin:
"Na Ceia, Cristo nos oferece espiritualmente tudo o que conquistou por sua morte."
Assim, participamos da Mesa com reverência, gratidão e esperança. Reverência, porque contemplamos o alto preço da redenção. Gratidão, porque fomos salvos exclusivamente pela graça. Esperança, porque aquele que venceu a morte prometeu voltar para buscar os Seus.
Apelo Final
Dentro de alguns instantes, tomaremos o pão e o cálice. Antes disso, contemple a cruz através das palavras de Isaías 53. Veja o Servo Sofredor carregando aquilo que era seu. Lembre-se de que "ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades". Se há pecado não confessado, arrependa-se. Se há relacionamentos quebrados, busque reconciliação. Se seu coração esfriou, volte-se novamente para Cristo.
Aproxime-se da Mesa não confiando em seus méritos, mas na suficiência do sangue do Cordeiro. Participe com fé, sabendo que o Cristo que morreu é o Cristo que ressuscitou, que hoje intercede por nós à direita do Pai (Hebreus 7.25) e que em breve cumprirá Sua promessa:
"Certamente cedo venho." (Apocalipse 22.20)
Nesse dia, a última Santa Ceia celebrada na terra dará lugar ao eterno banquete das Bodas do Cordeiro (Apocalipse 19.6-9). Não haverá mais lágrimas, pecado ou morte. Estaremos para sempre com o Senhor.
Até aquele grande dia, continuemos anunciando, por meio da Santa Ceia, que o Cordeiro foi morto, ressuscitou, reina em glória e em breve voltará. Maranata! Amém.


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