domingo, 29 de março de 2026

LIÇÃO 11- O PAI E ESPÍRITO SANTO PR FERNANDO PESSOA

 LIÇÃO 11- O PAI E ESPÍRITO SANTO

PR FERNANDO PESSOA

INTRODUÇÃO:


A ação do Espírito Santo na vida do crente é um dom do Pai e do Filho, refletindo a obra trinitária na redenção. O Espírito Santo não apenas liberta o ser humano do pecado, mas também testifica a filiação dos eleitos e assegura o acesso à herança eterna. Trata-se de uma transformação integral, pela qual o crente é conduzido do “espírito de escravidão” para o “espírito de adoção”, da condição de condenação para a comunhão com Deus e da concupiscência da carne para a participação na glória eterna.


No presente capítulo, apresentam-se elementos doutrinários fundamentais para compreender a transição do homem da antiga vida sob o pecado e sob a lei para a nova vida na condição de filho adotivo em Cristo. Serão abordadas, em particular, as formas pelas quais o Pai e o Espírito Santo atuam em conjunto para garantir a adoção dos pecadores como filhos e coerdeiros da promessa divina, evidenciando a profundidade e a coerência da obra redentora trinitária.



I - O ESPÍRITO E AS DÁDIVAS DO PAI

1. Da Escravidão à Filiação


Rom 8:15  Porque não recebestes o espírito de escravidão, para, outra vez, estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. 



A Escritura revela que o salvo em Cristo não vive mais sob o domínio do “espírito de escravidão” (Rm 8.15a). Essa expressão (gr. pneüma douleía) indica uma disposição interior marcada pelo medo da punição e pelo estado de servidão às obras da carne (G1 3.10; 4.3).

Gál 3:10  Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque escrito está: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las. 


Gál 4:3  Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos reduzidos à servidão debaixo dos primeiros rudimentos do mundo; 


Tal situação se relaciona com a incapacidade da lei em libertar o pecador (Rm 7.12-14).


Rom 7:12  Assim, a lei é santa; e o mandamento, santo, justo e bom. 

Rom 7:13  Logo, tornou-se-me o bom em morte? De modo nenhum! Mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte pelo bem, a fim de que pelo mandamento o pecado se fizesse excessivamente maligno. 

Rom 7:14  Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado


Embora santa, a lei apenas revela o pecado, mas não concede poder para vencê-lo (Rm 3.20).

Rom 3:20  Por isso, nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado. 


Tiago apresenta a anatomia dessa

escravidão em três etapas: desejo — pecado — morte. 

O desejo ilícito concebido gera o pecado; e o pecado consumado gera a morte (Tg 1.15). 

Tgo 1:15  Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte. 


A escravidão aqui não se refere apenas à prática pecaminosa, mas também ao temor da morte (Rm 6.23; Hb 2.15).

Rom 6:23  Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor. 


Heb 2:15  e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão. 


Paulo expõe que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23a). O “salário” (gr. opsoniori) era um termo militar que designava o pagamento dos serviços de um soldado. O resultado dessa servidão é a morte. Por sua vez, o “pecado” (gr. hamartía) não é apenas um ato isolado, mas um mal que escraviza (Rm 6.12-14). 

Rom 6:12  Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências; 

Rom 6:13  nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniqüidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça. 

Rom 6:14  Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça. 


E a morte (gr. thánatos) tem um sentido abrangente: 

(i) morte espiritual (Ef 2.1); 

Efs 2:1  E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, 


(ii) morte física (Gn 3.19; Hb 9.27);

Gên 3:19  No suor do teu rosto, comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado, porquanto és pó e em pó te tornarás. 

Heb 9:27  E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo, depois disso, o juízo, 

e (iii) morte eterna (Ap 20.14).

Heb 9:27  E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo, depois disso, o juízo, 


Em contrapartida, o apóstolo apresenta a antítese “mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna” (Rm 6.23b). 

O “dom gratuito” (gr. chá- risma) refere-se a um presente imerecido. A “vida eterna” (gr. zõe aionios) não é apenas duração sem fim, mas comunhão ininterrupta com Deus (Jo 17.3).

Joã 17:3  E a vida eterna é esta: que conheçam a ti só por único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste. 


A dimensão desse ensino mostra que o ser humano, escravizado pela carne, está destinado à morte, não como consequência natural, mas como uma retribuição justa. Porém, a salvação não é “pagamento” nem “mérito”, mas dom gracioso. Desse modo, sob a graça divina, o crente recebe o “espírito de adoção” (Rm 8.15b). 


Essa frase (gr. pneuma huiothesia) aponta para a nova identidade em Cristo, um vínculo de afeto, perdão e inclusão na família de Deus (G14.4-5; Ef 2.19).

Gál 4:4  mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, 

Gál 4:5  para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. 


Efs 2:19  Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos Santos e da família de Deus; 


O termo “adoção” indica o ato jurídico de conceder a alguém o status pleno de filho legítimo, com todos os direitos de herança. 

Assim, o salvo deixa de ser escravo, não apenas é aceito como filho, mas também se torna herdeiro (Rm 8.17). 

Rom 8:17  E, se nós somos filhos, somos, logo, herdeiros também, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo; se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados. 


Essa filiação livra do medo e do poder do pecado e da morte, e convida os filhos à comunhão com o Pai (G1 5.1; 1 Jo 5.18).


Gál 5:1  Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou e não torneis a meter-vos debaixo do jugo da servidão. 


1Jo 5:18  Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca. 


2. Da Rebeldia à Filho Legítimo


Antes da regeneração, todo pecador era espiritualmente idólatra e rebelde (1 Co 12.2).

1Co 12:2  Vós bem sabeis que éreis gentios, levados aos ídolos mudos, conforme éreis guiados. 


Henry descreve como “impelidos à mais grosseira idolatria [...] pela força de uma vã imaginação [...] Desgraça miserável da mente [...] Estado sombrio do paganismo”.


o principal agente da rebeldia é o Diabo ou Satanás, “cuja atividade começa com ações oponentes, consideradas próprias dele (Zc 3.1; Jd 9; Ap 12.10), mas logo se estende a atos, mais amplos, de assédio e tentação (1 Pe 5.8)”


1Pe 5:8  Sede sóbrios, vigiai, porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar; 


Apo 12:10  E ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora chegada está a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é derribado, o qual diante do nosso Deus os acusava de dia e de noite. 


Nessa condição de rebeldia e consequente queda, todas as áreas do ser humano foram afetadas.


Segundo Armínio, “neste estado [caído] , o livre-arbítrio do homem para o que é bom não somente está ferido, aleijado, enfermo, distorcido e enfraquecido; ele também está aprisionado, destruído e perdido”.

Todavia, por meio da graça, Deus capacita o homem para que responda com fé ao chamado do evangelho.


Dessa forma, os seres humanos, influenciados pela graça que habilita a livre escolha, tornam-se livres para escolher. Deus proveu a salvação, mas ela se aplica somente àquele que crer (Rm 3.22).


Rom 3:22  isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que crêem; porque não há diferença. 


Assim sendo, por meio da graça, o pecador é transformado pelos méritos de Cristo, e o Espírito “testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16).


Rom 8:16  O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. 


O verbo “testificar” (gr. symmartyrás) indica um testemunho conjunto, não paralelo ou independente. O Espírito corrobora a certeza que brota da Palavra crida e da fé viva. Não é mera sugestão psicológica; é ato divino de confirmação que se dá no íntimo do crente (Rm 5.5). 

Rom 5:5  E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado. 



O termo “filhos” (gr. tekna) ressalta a filiação por geração espiritual (novo nascimento).


Refere-se a uma nova posição espiritual e jurídica (Jo 1.12; Rm 8.15).


Joã 1:12  Mas a todos quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus: aos que crêem no seu nome, 


O Espírito opera a adoção, e confirma a nova realidade, atestando essa verdade diretamente ao coração do crente (2 Co 1.22). 

2Co 1:22  o qual também nos selou e deu o penhor do Espírito em nossos corações. 


Os privilégios dessa dádiva incluem o direito de chamar a Deus de Pai — “pelo qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15c), onde o aramaico “Abbâ” é a forma carinhosa para “papai”, e indica que em Cristo o crente tem íntimo e livre acesso ao Deus Todo-Poderoso (Ef 2.18). 


Efs 2:18  porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito. 


Outro beneficio do filho tornado legítimo é que ele se torna herdeiro de toda a riqueza do seu Pai adotivo (Ef 1.11).

Efs 1:11  nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade, 


3. Das Trevas à Plenitude do Espírito


A Escritura emprega a metáfora das “trevas” para descrever a condição de alienação do homem em relação ao Criador, marcada pelo pecado, ignorância e escravidão. Aos Efésios Paulo recorda: “noutro tempo, éreis trevas, mas, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” (Ef 5.8).


A expressão “éreis trevas” (gr. en skótos) não indica apenas que o homem estava em trevas, mas que sua natureza era trevas em si mesma, afastado de Deus (2 Co 4.4,6), depravado (At 26.18) e desesperado (Is 9.1,2).

 Contudo, o apóstolo acrescenta: “agora, sois luz no Senhor” (gr. nyn phõs en kyrios). A frase mostra a transformação operada por um ato gracioso do Pai (1 Pe 2.9).


1Pe 2:9  Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; 


Essa transição é descrita como uma transferência “do império das trevas [...] para o reino do Filho do seu amor” (Cl 1.13, ARA).


Col 1:13  Ele nos tirou da potestade das trevas e nos transportou para o Reino do Filho do seu amor, 


Contrastando com a escuridão, os filhos do Reino agora são luz, eles possuem conhecimento de Deus (SI 36.9), justiça e santidade (Ef 4.24), e a felicidade (SI 97.11; Is 9.1-7). Além disso, se tornaram também refletores dessa luz (Mt 5.14; Jo 8.12)



Mat 5:14  Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; 

Joã 8:12  Falou-lhes, pois, Jesus outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida. 


O sinal dessa nova vida é a presença do Espírito: “E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai” (G1 4.6). 


O envio do Espírito é a prova da adoção do crente como filho legítimo (Rm 8.9,14-16). 


Stronstad afirma que “embora os gentios não fossem filhos naturais de Deus (isto é, os judeus), por causa de Cristo foram completamente adotados em sua família e lhes foi dado o direito de receberem a herança do povo da aliança de Deus”

A expressão “Espírito de seu Filho” é singular, indicando a continuidade da obra de Cristo por meio do Espírito (Jo 15.26; 16.14; Fp 1.19). 

Flp 1:19  Porque sei que disto me resultará salvação, pela vossa oração e pelo socorro do Espírito de Jesus Cristo, 



E, assim como Jesus orava ‘Aba, Pai” (Mc 14.36), o crente é capacitado a ter comunhão íntima com Deus. Aquele que andava em trevas e cegueira espiritual, agora vive em plena luz, guiado pelo Espírito (Rm 8.14). ,


Por meio do Pai e do Filho, o Espírito liberta o pecador da escravidão, confirma sua filiação e o retira da escuridão para viver como filho de Deus.


II - O ESPÍRITO NOS GUIA NA VONTADE DO PAI


1. Os Filhos São Guiados pelo Espírito


A verdadeira marca de um filho de Deus não é apenas o nome ou a profissão de fé, mas uma vida conduzida pelo Espírito Santo. O apóstolo Paulo afirma: “Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus” (Rm 8.14). Esse “ser guiado” indica uma ação contínua do Espírito na vida do crente, conduzindo-o no caminho da santidade e na mortificação do pecado (Rm 8.13). Assim como um pastor guia suas ovelhas (Jo 10.3), o Espírito conduz os filhos de Deus em toda a sua caminhada espiritual.

Essa direção do Espírito não se limita a decisões circunstanciais, mas envolve uma transformação de vida e caráter. Ele ensina, orienta e conduz os crentes à verdade (Jo 16.13), iluminando o entendimento para compreender a vontade de Deus (1 Co 2.12–16). Na Igreja Primitiva, essa orientação era visível nas decisões e na expansão missionária (At 13.2; 15.28; 16.6–7).

O Espírito Santo nunca contradiz a Palavra de Deus, pois foi Ele quem a inspirou (2 Tm 3.16–17). Pelo contrário, Ele conduz o crente a viver em oposição à carne e a manifestar o fruto do Espírito (Gl 5.16–18,22–23). Além disso, Ele distribui dons e capacita cada cristão para o serviço no Reino de Deus (1 Co 12; Ef 2.10).

Outro aspecto fundamental é a habitação permanente do Espírito no crente. Paulo ensina que o Espírito “habita” no coração regenerado (Rm 8.9), indicando uma presença constante e não temporária. Diferente do Antigo Testamento, quando o Espírito vinha sobre algumas pessoas para tarefas específicas (Jz 14.6; 1 Sm 16.13), agora Ele passa a morar dentro de cada crente (Jo 14.16–17).

Essa habitação é evidência da regeneração, pois somente quem nasceu de novo pode viver essa realidade espiritual (Jo 3.5–6). Assim, os cristãos não são deixados órfãos, pois o Espírito Santo vive neles, guia seus passos e confirma que pertencem a Cristo (Jo 14.18; 1 Co 6.19).

Síntese:

Ser filho de Deus significa viver sob a direção contínua do Espírito Santo, que habita no crente, ilumina sua mente, conduz à santidade, capacita para o serviço e confirma sua nova vida em Cristo.

2. O Espírito Opera a Mortificação da Carne

 vida cristã envolve um combate constante contra o pecado. O apóstolo Paulo ensina: “se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis” (Rm 8.13). Aqui ele apresenta dois modos de viver: segundo a carne e segundo o Espírito. Viver segundo a carne conduz à morte espiritual, mas viver segundo o Espírito conduz à vida.

A palavra “mortificar” indica fazer morrer continuamente o pecado, ou seja, enfraquecer e sufocar as práticas pecaminosas até que percam sua força. Isso não acontece por esforço humano apenas, mas “pelo Espírito”, que é o agente que capacita o crente a vencer o pecado (Rm 8.13).

Quando Paulo fala das “obras do corpo”, ele não condena o corpo em si, pois o corpo também será vivificado por Deus (Rm 8.11). O alvo são as práticas pecaminosas que se manifestam através dele. Assim, o Espírito Santo atua no crente para libertá-lo do domínio do pecado e conduzi-lo à santidade.

Embora o poder venha do Espírito, o crente também tem responsabilidade de cooperar nessa luta espiritual. A Bíblia ensina que o cristão deve andar no Espírito (Gl 5.16), despir-se do velho homem (Ef 4.22), crucificar a carne (Gl 5.24) e buscar a santificação diária (Cl 3.5; 1 Ts 4.3).

Assim, o Espírito Santo não apenas revela o pecado, mas transforma o coração e fortalece o crente para que o pecado não domine mais sua vida (Rm 6.14).

Síntese:
A mortificação da carne é um processo contínuo na vida cristã, realizado pelo poder do Espírito Santo, no qual o crente combate o pecado e vive em santidade, experimentando a verdadeira vida em Cristo (Rm 8.13).

3. O Espírito Age conforme o Plano do Pai


O plano da redenção é uma obra realizada pelo Deus Trino. A Bíblia ensina que, “vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho [...] para remir os que estavam debaixo da lei [...] e Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho” (Gl 4.4–6). A expressão “plenitude dos tempos” indica o momento exato determinado por Deus para cumprir seu propósito redentor, marcando a transição do período da lei para a revelação plena em Cristo.

Nesse plano, cada Pessoa da Trindade exerce um papel específico e harmonioso:

  • O Pai planeja e envia: Foi o Pai quem determinou o tempo e as circunstâncias da vinda de Cristo, demonstrando sua soberania no plano da salvação (At 17.26; 1 Jo 4.14). Ele é o autor da redenção.

  • O Filho executa a redenção: Jesus foi enviado para “remir” os pecadores (Gl 4.5). O termo grego indica resgatar mediante pagamento, apontando para o sacrifício de Cristo que satisfez a justiça de Deus (Ef 5.2; Hb 9.12). Assim, Cristo veio “buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19.10).

  • O Espírito aplica a salvação: Após a obra de Cristo, o Espírito Santo é enviado para tornar eficaz a redenção no coração dos crentes, confirmando a adoção como filhos de Deus e conduzindo-os à comunhão com o Pai (Rm 8.15–16; Gl 4.6; Jo 16.7–8).



Síntese:
A redenção revela a perfeita cooperação da Trindade: o Pai planeja, o Filho realiza e o Espírito aplica. Dessa forma, a salvação é uma obra soberana e completa do Deus Triúno.

III - A TRINDADE CONDUZ À HERANÇA ETERNA

1. Herdeiros de Deus por Adoção

A herança espiritual dos crentes está diretamente ligada à adoção como filhos de Deus (gr. huiothesia), que significa ser recebido na família de Deus com pleno direito de filho. Por isso, Paulo declara: “se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus” (Rm 8.17). Essa herança não é conquistada por mérito humano, mas concedida pela graça divina, segundo a vontade soberana de Deus (Ef 1.5).

Na perspectiva bíblica, essa herança também revela a atuação da Trindade:

  • O Pai é o planejador da herança, que realiza todas as coisas conforme o conselho de sua vontade e garante aos filhos participação em suas bênçãos (Ef 1.11).

  • O Filho conquistou essa herança por meio de sua obra redentora na cruz, pelo seu precioso sangue (1 Pe 1.19). Como Primogênito, Ele torna os crentes coerdeiros com Ele.

  • O Espírito Santo é o penhor ou garantia da herança, assegurando aos crentes que as promessas de Deus se cumprirão plenamente (Ef 1.14).

Essa herança possui duas dimensões: presente e futura. No presente, os filhos de Deus já desfrutam das bênçãos da salvação, como justificação e nova vida em Cristo (Rm 5.1; Ef 2.8), além da atuação do Espírito Santo com dons e poder (Mc 16.17–18; At 2.1–4; 1 Co 12.4–11). No futuro, aguarda-se o cumprimento pleno das promessas, como a vida eterna e a glorificação (Rm 6.23; Rm 8.30).

Síntese:
Pela adoção em Cristo, os crentes se tornam filhos legítimos de Deus e, consequentemente, herdeiros de suas promessas, desfrutando desde agora das bênçãos da salvação e aguardando a plenitude da herança eterna.

2. Coerdeiros de Cristo por Filiação

A filiação divina não apenas coloca o cristão na família de Deus, mas também o une a Cristo como coerdeiro. Paulo ensina que os salvos são “coerdeiros de Cristo” (Rm 8.17), isto é, participam da mesma herança espiritual concedida ao Filho Primogênito (Rm 8.29). O termo grego synklêronomoi indica alguém que recebe uma herança juntamente com outros.

Essa herança não consiste em riquezas terrenas, mas em uma herança eterna e incorruptível, reservada nos céus (1 Pe 1.4). O maior privilégio dessa herança é a comunhão plena e eterna com Cristo (Jo 17.24), participando de sua glória e do reino que o Pai lhe concedeu (Mt 28.18; Hb 1.2; Ap 3.21).

Entretanto, Paulo destaca que ser coerdeiro de Cristo também implica participar de seus sofrimentos. A Escritura afirma que, “se com Ele padecemos, também com Ele seremos glorificados” (Rm 8.17). Assim, a vida cristã envolve sofrimento, perseguições e provações, mas essas experiências fazem parte do processo de identificação com Cristo (Fp 1.29; Fp 3.10; Cl 1.24; 2 Tm 2.12).

Esse caminho molda o crente para que seja conformado à imagem de Cristo (Rm 8.29). O sofrimento tem um propósito pedagógico: fortalecer a fé, purificar o caráter e produzir esperança (Rm 5.3–5). Contudo, as aflições presentes não se comparam com a glória futura que será revelada (Rm 8.18).

Síntese:
Ser coerdeiro de Cristo significa compartilhar tanto dos sofrimentos no presente quanto da glória futura. A caminhada cristã une cruz e coroa, sofrimento e esperança, conduzindo os filhos de Deus à participação

3. O Pai Administra o Tempo da Herança


Paulo usa a metáfora de um herdeiro menor de idade para explicar a condição espiritual antes da plena revelação de Cristo. Ele afirma que “todo o tempo em que o herdeiro é menino está debaixo de tutores e curadores até ao tempo determinado pelo pai” (Gl 4.1–2). Essa ilustração descreve a situação de Israel na Antiga Aliança: embora possuísse as promessas de Deus, o povo ainda vivia sob a tutela da lei e das estruturas temporárias, sem desfrutar plenamente da herança prometida (Gl 4.3).

Paulo destaca que o Pai é quem determina o tempo apropriado para a manifestação da herança (Gl 4.4). O termo grego prothésmios indica um tempo previamente estabelecido. Isso mostra que Deus governa soberanamente a história e o cumprimento de suas promessas (Ec 3.1). Não foi o tempo que moveu Deus a agir; foi Deus quem determinou o tempo certo para enviar o Messias e revelar plenamente sua salvação.

Assim, o crente deve confiar no tempo perfeito de Deus, reconhecendo que Ele conduz todas as coisas segundo sua vontade (Rm 8.28). A espera pelas promessas não é inútil, mas um processo de maturidade espiritual no qual Deus prepara seus filhos.

Além disso, essa metáfora mostra que a herança é progressiva: antes da maturidade espiritual, o herdeiro participa apenas parcialmente das promessas, até alcançar crescimento na fé e no conhecimento de Cristo (Ef 4.13).

Síntese:
Deus administra soberanamente a herança de seus filhos. Ele determina o tempo certo para cumprir cada promessa, enquanto prepara e amadurece os crentes para desfrutarem plenamente da herança em Cristo.

CONCLUSÃO

O Espírito Santo é a dádiva do Pai celestial e de seu Filho Jesus. O Espírito nos torna filhos por adoção, herdeiros com Cristo, habita em nós, orienta e santifica o crente. A Igreja deve viver sob essa consciência: pertencemos ao Pai, guiados pelo Espírito, glorificando ao Filho.


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